Domingo, 5 de Outubro de 2008

Quando olho para o meu percurso de aproximação ao PSD ao longo de quase três décadas encontro, na origem, lógicas emocionais que provavelmente precederam lógicas de orientação racional. Todavia, à medida que o tempo foi passando, a relação entre a emoção e a razão tendeu a inverter-se e, ainda assim, não deixo de encontrar motivos suficientemente fortes para me manter na área política do PSD, tanto mais numa altura em que o senso comum tende a valorizar a condição de independente ou, mais ainda, tende a valorizar predisposições contra os partidos políticos. Por um lado, por ser social-democrata convicto e, por outro, por saber que o enfraquecimento dos partidos políticos tem uma relação directa com o reforço do poder do Estado (ou do regime de partido único) cujo resultado inevitável é a degradação da qualidade da vida pública, é com à vontade que exprimo a minha profunda insatisfação com a atitude do PSD na área da educação. Não estão em causa pessoas concretas que têm servido o Partido e o País, mas a natureza do projecto político colectivo para o ensino do PSD, tanto mais perversa quanto mais essa dimensão da acção partidária se afunda na omissão.
 
O mal não vem de Fevereiro de 2005 com a vitória do Partido Socialista com maioria absoluta. Remonta à fundação do PSD em 1974. Quem se der ao trabalho de analisar o que se escreveu sobre a educação no programa do Partido de 1974 e na (única) revisão de 1992 perceberá a que me refiro. Nesses documentos é por demais evidente que o Partido navegou a onda pautada pelo monopólio ideológico de uma espécie de teologia da libertação adaptada ao ensino, sem que, ao longo destas quase três décadas e meia de existência, se tenham manifestado no seu interior preocupações ideológicas consistentes no sentido do PSD se demarcar dessa orientação programática, distinguindo-se das demais forças políticas, em especial dos partidos de esquerda e de centro-esquerda. O PSD acaba por ser, nessa perspectiva, um dos mais sérios responsáveis pelo regime de pensamento único que domina as políticas educativas em Portugal há mais de três décadas e que perpetua a herança educativa do Estado Novo no que tem a ver com a ausência de pluralismo ideológico no sector. Enquanto essa tendência de longa duração não for quebrada não haverá melhorias sustentadas. Não alimento, portanto, o que quer que seja de saudosismo. Antes uma ambição para o futuro por ser tão errado um ensino centrado no professor, quanto um ensino paranóico centrado no aluno que até agora não foi capaz de buscar um equilíbrio entre direitos e deveres face à instituição-escola.
 
Os que vêem nessa tese qualquer exagero era bom que leccionassem numa das inúmeras escolas do ensino não superior das periferias urbanas para perceber o regime de opressão ideológica em que uma grande parte de professores e alunos vive e para se perceber como o governo do PS (versão 2005) não inventou nada que antes não existisse, mas limitou-se a radicalizar tendências que há muito pautam o ensino (e para as quais os socialistas já haviam contribuído na versão 1995). Se na última década o PS vem cometendo erros atrás de erros por acção (inventando e massificando sem testagem prévia absurdos como as aulas de 90 minutos, a área de projecto, a formação cívica, sobrecarregando os currículos, fingindo não ver o problema central do excesso de alunos por turma, entre outros obstáculos estruturais que se perpetuam), o PSD não é menos responsável por actuar por omissão, quer como oposição, quer como poder. Até hoje o PSD não foi capaz de revelar frontalidade e coragem para romper com a sua matriz ideológica para a área da educação, em clara divergência as suas orientações ideológicas noutros domínios da acção política. Essa incongruência tem marcado a postura política dos sociais-democratas desde a sua fundação em 1974. É altura de debater a questão.
 
Vale a pena sublinhar que o problema do ensino é, antes de tudo o resto, um problema político com uma fortíssima componente ideológica, espelhada numa ideologia pura e dura disfarçada de ciência (as ditas «ciências» da educação). O problema é que essa tendência parece dominar o interior dos dois grandes partidos políticos: o PS e o PSD. Para não falar nos outros. O ensino melhorará naquilo que é essencial e com sustentabilidade quando as principais forças políticas mudarem no seu interior tendo em conta os seus posicionamentos face ao ensino. Não se trata, portanto, apenas do PSD romper com a tradição ideológica da esquerda em geral. Neste caso e acima de tudo, trata-se de os sociais-democratas romperem com a sua própria tradição (porque se confunde com a tradição da esquerda em geral) e respeitarem as sensibilidades relativas ao ensino dos seus militantes, dos seus simpatizantes e de uma parte importante da sociedade portuguesa que não se revê no que existe, nem dispõe de projectos políticos que respondam às suas legítimas ambições.
 
A solução do problema educativo é, por isso, uma batalha essencialmente ideológica e demasiado séria. Não ter coragem nem capacidade para enfrentá-la é continuar a adiar o país. É também óbvio que, ao nível das políticas educativas, nada mais há a esperar do actual PS. Ou o PSD consegue construir, desde já, um pensamento e um programa políticos consequentes, estruturados e fortes, capazes de romper com o statu quo e de apontar um outro caminho para o ensino com o qual os sociais-democratas se identifiquem enquanto colectivo, ou então arrastar-se-á a mediocridade em que nos atolamos.
 
Acrescento que dificilmente o PSD se distinguirá do PS de forma convincente se não se diferenciar ao nível das políticas educativas. E mesmo que isso aconteça, se a mensagem sobre o ensino não passar com eficácia para o senso comum, algo de profundamente errado existirá no discurso adoptado. Como sou dos que acreditam no papel insubstituível dos partidos políticos numa democracia, é para mim óbvio que há muito o ensino constitui um terreno potencial muito apelativo para o reforço da identidade colectiva do PSD (muito mais do que para qualquer outro partido político) situação que, ao mesmo tempo e muito mais importante do que isso, beneficiará a prazo estruturalmente o País.
 
O PSD já me deu provas de, no seu interior, se poder pensar e criticar livremente aquilo com que não concordamos no ensino. Creio que isso o distingue, muito em particular, dos partidos à sua esquerda. Alguém imagina criticar o embuste que são as ciências da educação junto da fina-flor socialista? Alguém imagina tratar com verdade problemas cruciais para o ensino como a indisciplina ou o facilitismo junto do núcleo duro do PS e, em geral, da sua elite, uma parte dela, ao que parece, deslumbrada com a superficialidade e perversidade do sucesso estatístico apresentado pelo ministério de Maria de Lurdes Rodrigues? Alguém acredita que o actual PS tem lucidez suficiente para, por exemplo, repensar questões como a classificação dos resultados escolares ou alargamento dos exames a outros níveis de escolaridade e disciplinas, em especial no ensino básico, sem que nele próprio se agite uma histeria anti-chumbos e anti-mais-exames? O raciocínio poderia estender-se. Existe, por isso, um mundo a (re)pensar no ensino para o qual a Direcção do PSD e os seus militantes têm de despertar com seriedade, com frontalidade, com ousadia, com liberdade. É minha convicção que uma boa governação depende directamente desse pressuposto.
 
Porém, só será possível mudar o ensino para melhor no momento em que os professores de sala de aula do ensino não superior forem tratados, pelos partidos e demais forças políticas (incluindo a Presidência da República e a Assembleia da República), enquanto seres com a dignidade de seres pensantes. Se eles não sabem da sua profissão e da realidade da sala de aula onde (quase) tudo se decide, o mais certo é mais ninguém saber a sério o que quer que seja sobre o ensino. E se a elite governativa do PS parece não cair do pedestal iluminado da asneira (agora como no passado), o PSD tem pela frente uma óptima conjuntura pré-eleitoral para provar que está a altura dos desafios que o Portugal enfrenta.

Gabriel Mithá Ribeiro


Temas:

publicado por GP/PSD às 18:22 | link do post | comentar

8 comentários:
De Joaquim a 5 de Outubro de 2008 às 18:51
Não poderia estar mais de acordo. O problema do desastre do ensino em Portugal é essencialmente um problema ideológico cimentado por Maria de Lurdes Rodrigues assim que chegou ao poder.

Enquanto não se romper que a ideologia do bom selvagem tão à moda da esquerda caviar, dos socialistas e, infelizmente, de grande parte dos social democratas, Portugal continuará a ser um país adiado e quase todos continuaremos a empobrecer alegremente.


De Helena a 6 de Outubro de 2008 às 00:11
Tenho lido com agrado alguns dos escritos de Mithá Ribeiro sobre a realidade das escolas portuguesas. Considero, porém, perigoso para a causa da Educação e para a tal necessidade de se "construir, desde já, um pensamento e um programa políticos consequentes, estruturados e fortes" a associação (simplista?) de "um ensino paranóico centrado no aluno que até agora não foi capaz de buscar um equilíbrio entre direitos e deveres face à instituição-escola" aos partidos de esquerda. Concordando que estão em causa importantes questão ideológicas na definição das políticas educativas, penso que só prejudica o debate sério e consequente a ideia de que a esquerda ( qual esquerda?!) defende a indisciplina ou o facilitismo. É, realmente, colocar a discussão ao (des)nível de afirmações do tipo da que aqui lemos sobre uma suposta "ideologia do bom selvagem" defendida por uma tal de "esquerda caviar". O que se tem feito em nome das Ciências da Educação tem, seguramente, muito mais a ver com oportunismos pessoais do que com esquerda e direita.


De José a 5 de Outubro de 2008 às 23:54
Bom. Aqui está alguém que sabe do que fala e tem alguma coisa para dizer. E digo isto por comparação com textos abstrusos, sem qualquer nexo de causa efeito, de quem não percebe nada do assunto.
Digo-o porque até discordo de algumas ideias. Por exemplo, a do exame salvador. Neste momento a quantidade de exames é mais ou menos a razoável. Épocas de exames muito longas, com muitas e variadas provas, encerramento antecipado das aulas, e não só, provocam tantas alterações no seu funcionamento, tanta burocracia, tantas regrazinhas, tanta picuinhice, que prejudicam mais do que beneficiam.
De qualquer modo, parabéns.


De Margarida Pires a 6 de Outubro de 2008 às 00:04
Caro Gabriel Mithá Ribeiro:
Se o seu partido tiver o discernimento e o bom senso de lhe dar o devido valor, então ainda haverá esperança para que algum dia a escola seja um melhor lugar, cumpra melhor o seu papel, agradeça e reconheça o esforço de quem lá trabalha, e faça as "pazes" com a sociedade.
Voto em si! Parabéns!
Margarida Pires


De José a 6 de Outubro de 2008 às 01:05
Bom. Aqui está uma abordagem de alguém que sabe daquilo que está a falar. Num tempo em que se vê cada vez mais caroqueiros escribas e outros a fazerem-se passar por aquilo que não são, é de louvar. E falo à vontade até porque discordo de algumas ideias. Por exemplo, a do exame salvador do sistema. Penso que o número de exames está neste momento numa medida mais ou menos certa. As épocas de exames demasiado longas, com o consequente encurtamento do tempo lectivo, a quantidade de provas, o cumprimento de excessos burocráticos, regras, regrinhas e regretas , os excessos de zelo de determinadas hierarquias, o desgaste pouco útil em todas as subtilezas dos exames, entre outros aspectos, acabam por se tornar mais prejudiciais do que benéficas. Principalmente, para a obtenção de habilitações escolares como a básica. Já agora, o texto mostra preocupações legítimas. Poderia o PSD preocupar-se um pouco mais com a escola pública? Ter alguém a acompanhar esta experiência mundial de desmotivar os principais trabalhadores desta grande "Empresa", para testar depois os resultados? Suponho que é a primeira vez que se faz! Nenhum empresário a faria, mas se a fizesse no final verificaria os resultados. A diferença é que aqui os resultados começam a ser quase, digamos, "aconselhados"!


De h5n1 a 6 de Outubro de 2008 às 17:29
Seria de facto um trabalho deveras interessante, analisar a relação entre a ideologia dominante de "esquerda" em relação à educação, e certas práticas instaladas no Ministério de Educação nos últimos 34 anos.


Em primeiro lugar a ideia do aluno-centrismo , que ganhou força no nosso país com a teoria omnipresente de Piaget e com o construtivismo.

Depois, com todos os amadores de Maio de 68 na sua demanda psico-dramática dos afectos, contra a hierarquia e a autoridade dos docentes (traduzida na prática em tantas passagens administrativas e melhores carreiras fulgurantes de ex-maoístas e ex-estalinistas).


A somar a tudo isto, a matriz fundacional das Ciências da Educação, ligada umbilicalmente ao "destino" social ( teoria invertida do "dom"), à Sociologia dos "herdeiros" e da "reprodução", reduto estrutural, profissional e ideológico, de rapazes e raparigas em busca de algum protagonismo e cumplicidade, qual seita adoradora da "escola monopolista do Estado".
A "escola pública", enquanto instrumento de engenharia e de mudança, consolida-se numa continuidade histórica e ideológica, em toda a abordagem positivista do processo educativo.

Nesta concepção hegeliana-marxista de escola, a pedagogia serve sobretudo como instrumento de encontro com a "verdadeira história", de construção de um "povo novo", ideia central do jacobinismo.

Este é o lastro da "esquerda" na educação, que ainda encontra excrescências no actual ministério da educação, ou não fosse Sócrates um tele-evangelista da "mudança" e um vendedor exímio de aparelhos do "progresso".


De Esquerdista a 9 de Outubro de 2008 às 10:20
Realmente o ME tem sido dominado, nestes 30 e tal anos de democracia, por perigosos esquerdistas. O ministro cavaquista Roberto Carneiro, por exemplo. Outro bom exemplo é o secretário V. Lemos, que já foi candidato pelo CDS a uma câmara municipal. Um acérrimo defensor do construtivismo e da pedagogia do "sucesso", como qualquer ex-aluno da ESE de Castelo Branco poderá confirmar.


De pedro picoito a 6 de Outubro de 2008 às 18:10
Excelente post. Sendo eu social-democrata, há que reconhecer que só olhando para os erros do PSD em matéria de políticas educativas se poderá fazer melhor no futuro.


Comentar post

Temas

100% aprovações

apresentações

avaliação das escolas

avaliação: notas dos alunos

clipping

contributos

custos com retenções

debate

declaração

estatuto do aluno

facilidade dos exames

facilitismo

fim do exame de filosofia

opinião

perguntas

provas globais

rankings

resultados sem comparabilidade

todas as tags

Posts recentes

Pedro Duarte interpela a ...

Escolas estão a aplicar d...

PSD pede apreciação parla...

Ministra no Parlamento se...

Ministra da Educação diz ...

Ministério afirma que sem...

Ministério não considerou...

PSD confrontada Ministra ...

arquivos

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

links