Quarta-feira, 8 de Outubro de 2008

De medida em medida, tomou este governo a seu cargo a tarefa árdua de conduzir a Escola pelos caminhos da modernização e do desenvolvimento tecnológico. Na verdade, penso que este investimento no desenvolvimento de competências em crianças e jovens, no âmbito das novas tecnologias, pode revelar-se profícuo em variadíssimos patamares que conduzirão ao crescimento pessoal.

Todavia, tal promoção poderá ficar comprometida se a mesma não for acompanhada de um desenvolvimento de competências básicas ao nível do raciocínio lógico e matemático, da leitura compreensiva e escrita, bem como no próprio tratamento da informação que o “mundo novo” da Internet disponibiliza, quase infinitamente e sem controlo.
O livro, o papel, o lápis, o ábaco, o material concreto e manipulável, mal gradas todas as eventuais conjecturas, podem vir a ser abandonados e a ser substituídos por algo etéreo, virtual, tal como se derrubam os jardins e as florestas e se erguem, em seu lugar, torres de betão que enclausuram o pensamento criativo.
No caso concreto da Escola e mais especificamente do Espaço Escolar, - se nada se fizer, se nada for pensado - pode assistir-se, apesar da tão propagada modernização a um “encarceramento” diário das crianças e dos jovens num espaço confinado a quatro paredes e uma dúzia de computadores, relegando para segundo plano os espaços de socialização, tão desejados, por contradição, quando se procedeu ao encerramento de escolas com reduzido número de alunos e à transferência dos mesmos para modernos complexos escolares.
Na falta dos espaços de socialização sobram o isolamento e o egoísmo. O tempo da brincadeira e da interacção é agora substituído por um monitor e pelos modelos multimédia, em detrimento da bola e dos modelos humanos.
Em casa, o tempo é escasso para se instituir as regras de conduta, em virtude de os horários dos pais terem sido, substancialmente aumentados, o que provoca uma falha na relação educativa, quando mesmo, mina a autoridade dos pais. Por contraponto, o papel social educativo passou a ser um exclusivo da Escola, com as lacunas de um sistema onde falta pessoal técnico devidamente habilitado para fazer face a tantas e tão diferentes necessidades.
Por tudo isto, temo que a Escola se transforme, a breve trecho, num manancial burocrático, onde os papéis assumam lugar de relevo e nos estejamos a esquecer da verdadeira razão de existir da escola – a Educação das crianças e jovens.
Cresce a indisciplina e faltam estruturas de apoio aos alunos e suas famílias. Surge a violência, a cada passo, e faltam auxiliares de acção educativa, equipas multidisciplinares e formação na gestão de conflitos.
Objectiva-se a melhoria dos resultados escolares (sucesso de 100% ao nível do 9.º ano para o próximo ano lectivo) e atalha-se tal objectivo com medidas meramente burocráticas e pouco congruentes. Interrogo-me se tais resultados serão o reflexo da exigência educativa por que se deve pautar uma escola de qualidade.
Lentamente assistimos à morte da Escola da cidadania e da equidade, sendo poucos os que, sem estruturas de apoio à margem da escola, chegarão ao ensino superior.
Na escola pública, as turmas numerosas são obstáculos ao ensino individualizado e o apoio ao estudo, bem como os planos de recuperação não resultam porque os alunos são os mesmos; as turmas são as mesmas. A solução encontrada tem passado por enviar os alunos com mais dificuldades para currículos diferentes, não passando, por isso mesmo, de uma medida discriminatória e que põe em causa a Escola Inclusiva. É uma solução sem solução à vista!
Receio também que as Escolas de Referência, por falta de pessoal especializado e demais técnicos auxiliares, mais não seja do que o prenúncio do fim do Ensino Especial Público de qualidade, para o incremento de “escolas” privadas, principescamente pagas e nas quais as crianças e os jovens encontram todos os profissionais a que têm direito e que deveriam ser disponibilizados pela Escola obrigatória e tendencialmente gratuita – a pública de todos e para todos!
É que, apesar desta visão parecer a muitos desatentos, grotescamente desanimadora, continuo a acreditar num futuro para a Escola Pública, lugar que privilegio na educação dos meus dois filhos e educanda. É uma reflexão, tão só, mas creio ser um pequeno contributo para ajudar a construir a ideia de uma melhor escola para um maior futuro.
 
Maria José Viseu

Porta-voz da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação(CNIPE)


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