Quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

Hoje, muitos economistas e decisores políticos estão empenhados em construir um novo tipo de economia, menos preocupada com a igualdade de oportunidades, mas antes em criar condições para que os indivíduos participem na produção de uma economia baseada no conhecimento pelo conhecimento e desempenhem o seu papel individual nesse processo, na procura de uma cada vez maior competitividade, frequentemente sustentada pela afirmação falsa e retrógrada de que os direitos são muitos e se devem reduzir, ou numa versão mais anti-social que considera, tal qual processo de aperfeiçoamento rácico que seres humanos com mérito são poucos e cabem nas quotas propostas para bons e excelentes.

 
Ora não ter percebido até hoje que as medidas economicistas em Educação se pagam a longo prazo e com juros, é de uma grande indigência.
 
É por isso que decisão após decisão, o abandono e o insucesso se mantém mesmo ao nível da escolaridade obrigatória e que Portugal continua a ser o País da Comunidade Europeia com a mais baixa taxa de diplomação e simultaneamente com mais elevada taxa de desemprego no seio dos quadros qualificados com Ensino Superior.
 
Isto significa que o modelo económico de desenvolvimento do em que o país está a apostar não consegue absorver sequer a reduzida qualificação que temos e opta, cada vez mais, pela precariedade e desqualificação das relações laborais.
 
Como é possível neste cenário criar expectativas…
 
As famílias, as crianças e os jovens deveriam acreditar que ir à Escola, frequentar as aulas, aprender a fazer, constituem mais valias indispensáveis ao seu quotidiano, ao seu futuro e que com elas a cidadania está mais assegurada.
 
Deixando como marginal, neste momento, a avaliação ao modelo de desenvolvimento que considero inadequado e inválido para responder às nossas necessidades, abordarei só a Escola que é preciso criar.
 
São cinco as áreas que, na minha opinião, deveriam ser alvo de transformação e que não coincidem, nem se aproximam das medidas em curso: 
  • O processo de ensino-aprendizagem
  • Os conteúdos programáticos
  • A escola – o espaço – o tempo
  • A gestão e administração
  • A formação dos professores 
A ESCOLA do século XXI tem ainda a arquitectura de há 50 anos.
 
A distância da realidade é, em si mesma, motivo de desinteresse e de algum repúdio.
 
Considero, por isso, que a primeira grande transformação, no interior da ESCOLA, é ao nível do processo de ensino-aprendizagem.
 
O isolamento da função social do professor, sistematicamente posto em causa pelas decisões políticas é, hoje, de uma enorme fragilidade.
 
A história futura lerá este momento, e não deixará de condenar o autismo e a arrogância políticas perante o conhecimento, porque o professor é exactamente um dos veículos do saber, apesar de não ser o único.
 
É por isso que esta transformação urge.
 
A escola tem que se mobilizar para o conhecimento em equipa, em rede, que integre técnicos educativos, pedagogos, técnicos de saúde e docentes.
 
A estrutura de ensino – um professor – uma disciplina é retrógrada e anacrónica.
 
Nenhum jovem, nenhuma criança se identifica com esta escola uni(disciplinar).
 
O espaço educativo não é hoje um espaço de prazer, mas de obrigação e perturbador da sua formação no exterior, porque conflitua com ela.
 
 
A segunda urgente transformação passa pelos conteúdos, pelos programas.
 
Mais uma vez predomina a escola dos saberes individualizados, compartimentados e de banda muito estreita.
 
Esta sociedade também já não existe.
 
A escola tem que disponibilizar, em simultâneo, valores que enquadrem a vida de cada criança, cada jovem na diversidade dos espaços que a sociedade vai criando e recriando, e conhecimento em banda larga, motivadores da pesquisa, da criatividade e do espírito crítico.
 
As crianças e os jovens de hoje estão em excelentes condições de seleccionar, ao longo da vida, os conteúdos que pretendem aprofundar, reduzindo a banda inicial do saber que lhes foi disponibilizada.
 
 
A terceira urgente transformação prende-se com a definição de ESCOLA.
 
Actualmente o espaço escolar é um, entre tantos outros, que formam e socializam, mas que actualmente não pode, nem deve responder a todos os problemas do modelo social que o país escolheu.
 
A vida de uma criança e de um jovem não se reduz ao armazenamento em espaço escolar, com melhores ou piores condições.
 
Esta obsessão política da escola a tempo inteiro está a transformar o espaço educativo em reclusão para todos os que nela trabalham, do mais jovem ao menos jovem.
 
É contraprocedente a presença em qualquer espaço, tantas horas por dia, sem que aconteçam processos de rejeição.
 
O crescimento psicogenético precisa, mais uma vez, de diversidade espacial e de diferentes interlocutores.
 
A ESCOLA não é onde os encarregados de educação colocam as crianças o maior número de horas possível, para poderem trabalhar com tranquilidade.
 
A ESCOLA é para a criança e para o jovem, não para facilitar a vida ao adulto, seja ele qual for.
 
Para além da ESCOLA é preciso brincar, jogar, correr, abraçar, confidenciar, namorar, viver, aprendendo também mas sem nenhuma avaliação.
 
E esta felicidade está a ser roubada às nossas crianças e aos nossos jovens. E a factura será cobrada.
 
E é este viver para além da ESCOLA que deve merecer a intervenção e as múltiplas respostas das autarquias, de toda a sociedade, ouvindo os encarregados de educação e os especialistas, nomeadamente nas áreas da saúde e da educação.
 
Confundir tudo isto, implica criar crianças e jovens infelizes e condicionar e contrariar as vivências destes pequenos, e ainda em formação, seres humanos, mas a quem obrigamos a absorver todos os erros que se cometem, falaciosamente, em seu nome.
 
Traduzindo esta reflexão no momento actual significa, por exemplo, que a aprendizagem da Língua Inglesa, a Expressão Física e Motora, tal como a Iniciação Musical devem ser curriculares. São áreas que, forçosamente, determinam o sucesso presente e futuro das crianças e dos jovens.
 
É preciso pôr fim à mistificação.
 
Mais tempo na ESCOLA, não é sinónimo de melhor ESCOLA.
 
É preciso explicar isto às famílias que são as primeiras interessadas numa formação integral dos seus filhos.
 
 
A quarta transformação resulta desta ESCOLA NOVA porque é uma NOVA ESCOLA.
 
Este território diferente e diversificado não pode ser gerido de forma unipessoal.
 
Não há nenhum cidadão que saiba o suficiente sobre crescimento, desenvolvimento, aprendizagem, formação integral, administração e gestão.
 
Só equipas pluridisciplinares, com técnicos de educação, de saúde, de gestão, de administração e professores, poderão atingir os objectivos desta ESCOLA que é outra.
 
Uma ESCOLA que se adeque à sociedade do século XXI e não se assuma como excrescência dispensável.
 
 
A quinta transformação é também imprescindível à nova ESCOLA.
 
A formação actual dos professores não os equipa para esta nova função social.
 
E todas as medidas tomadas, mais ou menos recentemente, foram, exclusivamente, no âmbito dos recursos financeiros e não da qualidade e da modernidade.
 
É do conhecimento público o feroz ataque à dignidade dos docentes, aos mais diferentes níveis, atingindo com total insensatez os milhares de quadros qualificados que ao longo dos séculos ajudam a construir e a evoluir as sociedades.
 
É cedo ainda para avaliar as consequências nefastas desta leviandade, mas a história dará delas notícia.
 
Um outro modelo de formação urge.
 
Tal como os novos conteúdos que vão ensinar às crianças e aos jovens, também o seu próprio processo de aprendizagem tem que optar por uma banda menos estreita, menos contida no aprofundamento de uma área disciplinar e mais integradora de outros saberes, capazes de ler e ajudar a ler o mundo a todos e a cada um.

 

Luísa Mesquita

Deputada à Assembleia da República


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publicado por GP/PSD às 18:02 | link do post | comentar

1 comentário:
De Manuela Rocha de Carvalho a 4 de Outubro de 2008 às 17:04
Foi, de facto, uma perda enorme para os professores a expulsão de Luísa Mesquita do seu grupo parlamentar. Tal como revelam as suas palavras enviadas para este blog no dia 02/10/2008 , ela é, embora ideologicamente no extremo oposto a muitos de nós, uma pessoa profundamente conhecedora do que se passa na escola e uma mente crítica que muita falta tem feito no Parlamento. Gostei de ver, entre outras vozes, a dela neste debate. É a prova de que este debate é verdadeiramente plural e que o tema da Educação foi uma boa escolha feita por este partido da Oposição.
Manuela Rocha de Carvalho, Prof. E. Sec (QND)


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