Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

O destaque dado pelo chefe do Governo / Secretário Geral do PS, no tão glosado comício de Guimarães, à Ministra da Educação / militante Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) não deixa de ser, a um tempo, curioso e paradoxal.
 
Curioso porque Sócrates não só não deixa cair a Ministra, apesar de zurzida por todos os sectores, da esquerda à direita, passando por docentes, discentes e opinião publicada, como ainda a destaca relativamente aos seus pares do conselho de ministros, incensando-a nos altares da Comunicação Social como uma espécie de Joana d' Arc dos tempos modernos, a paladina da “revolução educativa” em Portugal.
 
Paradoxal pois, ao mesmo tempo que nunca a Educação, em Portugal, atravessou tempos tão difíceis, também nunca a propaganda e o marketing investiram tanto num sector procurando, como diz o povo sabiamente, dourar a pílula. E a pílula que resulta do consulado de MLR, é muito difícil de engolir e, apenas os mais incautos, julgarão tratar-se de um medicamento vital e até agradável de degustar, capaz de, qual elixir fantástico, curar de tudo, de unha encravada à queda do cabelo e dando, inclusive, garantias reais de longevidade.
 
O Governo aposta, pois, no efeito placebo, na educação. O problema serão os efeitos secundários na enferma república que resultarão de tal terapêutica irresponsável.
 
Portugal, em virtude de razões estruturais que, por esse motivo, só são passíveis de alteração sistémica mas, forçosamente lenta, tem índices de escolaridade e de literacia que, nos benchmark internacionais, seja da OCDE, seja da UE a 15 ou 27, invariavelmente, o colocam em posição de destaque pela negativa.
 
A situação é devidamente conhecida há muitos anos e, os sucessivos Governos, vieram com maior ou menor sucesso (mas acima de tudo com sensibilidade e bom senso) a prosseguir políticas que permitiram que o país recuperasse muito do tempo perdido por uma aposta estratégica tardia na Educação.
 
O actual Governo rompeu com as políticas sensatas anteriores e adoptou o velho princípio de que, quem quer manipular a realidade, tem três caminhos: ou mente, ou omite ou, por último, cria uma estatística.
 
A aposta clara é, precisamente, no sentido de alterar overnight o status quo no posicionamento de Portugal nos benchmark internacionais, em matéria educativa, como se tal fosse realisticamente possível, como se os aspectos nominais relevassem, de tal modo, que a realidade, por milagre, lhes prestasse tributo e se lhes sujeitasse incondicionalmente.
 
Convenhamos que não é por se transformar o Conselho de Ministros numa empresa de distribuição de hardware que os alunos (sem o adequado enquadramento na escola ou no lar) desenvolvem competências plenas em informática ou que, por se facilitar a vida nos exames de Língua Portuguesa ou de Matemática (excluindo mesmo os correctores de exames que tradicionalmente eram mais rigorosos nessa tarefa) se criam génios nestas duas áreas fundamentais do saber.
 
A prosaica frase dos 100% de aprovações no final da escolaridade básica, expressa há uma semana por MLR, não é apenas um exercício pueril de wishful thinking. Ela simboliza tragicamente, em si mesma, todo o desiderato governamental da política educativa, nem que para isso se tenham de baixar, de tal modo, os padrões de objectividade curricular que, num futuro cada vez mais próximo, nem o 12.º ano resista a uma comparação com a tão glosada 4.ª classe antiga .
 
Os facilitismos curricular, pedagógico e avaliativo são, pois, as novas pedras de toque da política educativa, em nome de um igualitarismo que tudo nivela por baixo, que desvaloriza a escola pública, o papel social dos professores, desincentiva os alunos aplicados, compromete o edifício dos saberes e desguarnece, escandalosamente, a necessidade vital de competências por parte do país.
 
É a institucionalização da “escolaridade mínima garantida” o fornecer do peixe em lugar do ensino/aprendizagem do saber pescar. Porém, convenhamos, a vida em sociedade, a competição por um posto de trabalho e as exigências que colocam são tudo menos fáceis. A escola corre o risco de se divorciar irreversivelmente da realidade, de se ocupar em entreter e animar crianças, adolescentes e jovens em lugar de os preparar para a sociedade e o mundo do trabalho.
 
Tudo seria risível se estivessemos a falar do sistema educativo togolês, mas não, estamos mesmo a falar desta nossa república à beira mar plantada, a terra que todos nós gostamos e que queríamos cada vez mais competitiva e próspera.
 
Convenhamos que, se tal desiderato for cumprido, isto é, no final do básico, as retenções forem de 0% e o absentismo dos alunos não relevar para nada, então, Portugal recuperá, por certo, nos benchmark e passaremos a ser os primeiros dos rankings mas o seu futuro como nação competente e desenvolvida estará, quiçá de modo irreversível, comprometido.
 
Mutatis mutantis é como se alterássemos, por decreto, os padrões de qualidade das águas balneares e a água do rio Lis, mesmo após mais uma descarga ilegal da famosa Ribeira dos Milagres, se transformasse em água mineral e excelente para banhos.
 
Esta política educativa é a demonstração prática que, afinal de contas, com MLR e com este Governo, apesar de laico, republicano e socialista, os milagres são, afinal, possíveis.
 
Pedro Roque
Vice – Secretário-Geral SINDEP (Sindicato Nacional e Democrático dos Professores)
Vereador na Câmara Municipal de Almada

 


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publicado por GP/PSD às 10:15 | link do post | comentar

1 comentário:
De rxc a 3 de Outubro de 2008 às 17:02
Não podia estar mais de acordo consigo. É um embuste o que está a ser feito pelo ME, mas penso que os portugueses têm apenas o que merecem. Então não querem todos ter um canudo? Pois que o tenham, mesmo que não valha nada!


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