Domingo, 5 de Outubro de 2008

No sentido de contribuir para o debate, procurarei limitar-me a aspectos concretos da politica desastrosa que vimos tendo, por parte de uma equipa ignorante da realidade do país e das escolas:
1- Docentes: Estão desmotivados, esmagados em burocracia, perdem horas intermináveis nas escolas em reuniões inconsequentes e em actividades sem conteúdo prático, falta-lhes tempo para preparar aulas materiais, corrigir testes/trabalhos, enfim para se dedicarem aos seus alunos e ensinar. No entanto trabalham semanalmente muito mais horas para além do limite legal, sendo normal gastarem-se 40, 50 horas por semana, mais de 50% em actividades inúteis e burocracia. Para completar o desespero e a revolta reinantes, viram o seu estatuto económico e social denegrido e contam com uma carreira, inexplicavelmente dividida em duas categorias, com o único propósito de pagar menos, baseada no exercício de cargos que, nada tem a ver com o mérito no exercício da sua principal tarefa que é, ou devia, ser ensinar. A burocracia reina e ensinar, preparar os jovens para um mundo cada vez mais exigente em termos de conhecimentos e competências, não interessa e é perfeitamente marginal. Interessa sim conseguir melhorar as estatísticas do falso sucesso escolar. O ambiente nas escolas é insuportável, o trabalho em equipa é difícil e todos vivem obcecados com a avaliação de desempenho, um modelo que demonstra a ignorância e incompetência deste governo  na gestão de recursos humanos È preciso que todos os alunos transitem, independentemente de terem ou não aprendido alguma coisa, de terem ou não ido à escola de terem ou não comportamentos sociais e de cidadania adequados. 

Transmite-se o facilitismo e a irresponsabilidade, num mundo cada vez mais exigente e selectivo. Os Professores sabem e os alunos também. O que é preciso é diplomas, mesmo que passados a pouco mais que analfabetos. A Inglaterra, atravessou uma grave crise na educação à cerca de 30 anos e numa entrevista ao jornal Publico, Jim Knight, Secretário de Estado da Educação refere que foi preciso dignificar a profissão docente, que é hoje uma das mais prestigiadas e acrescenta que os docentes foram libertados de todo o trabalho burocrático, criando-se a figura do assistente (não docentes) para libertar os docentes do trabalho burocrático, para que estes se dediquem apenas a ensinar. Será que estamos a iniciar o percurso que a Inglaterra, percorreu para daqui a 30 anos ter um bom sistema educativo?

2- Alunos: Sabem que faltar à escola porque estão doentes ou simplesmente não lhes apetece lá ir, é igual e, em qualquer dos casos, basta depois um  teste, trabalho ou uma simples conversa  para ultrapassar a situação. Sabem ainda que se não passarem a culpa é dos professores e estes é que poderão ser prejudicados, não eles. Sabem assim que, não é preciso estudar e trabalhar, respeitar os professores, acatar orientações ou normas ou ter um comportamento aceitável, porque no fim do ano, tudo é ultrapassado e tudo se resolve. Neste sistema só são prejudicados os alunos que querem aprender e saber mais, que querem trabalhar e não acreditam nem aceitam o facilitismo, nem andam apenas atrás de um qualquer certificado. Só que estes estão no País errado, porque para este governo, não é disso que o País precisa, mas apenas de boas estatísticas, custe o que custar. Estes alunos estão a ser prejudicados e enganados por estes governo irresponsável. Estamos a enganar toda uma geração que vai ser ultrapassada e espezinhada por imigrantes oriundos de países onde saber e ser competente ainda são valores fundamentais.

3- As Escolas: Morreu a autonomia das escolas que só existe no papel. Diariamente as escolas são invadidas por despachos, circulares, notas informativas e orientações que pretendem regular tudo e todos a partir da 5 de Outubro. Para se assegurar de que tudo é feito no estrito cumprimento dessas normas e garantir que não há falhas na sua interpretação ou para transmitir mais orientações, convocam-se os Conselhos Executivos das Escolas, o chamado Conselho de Escolas com a finalidade de se assegurarem que tudo é controlado ao milímetro, sem atender à realidade das escolas e de cada uma delas.
 

Contributo enviado por: Guedes da Silva, Professor de Economia

 



publicado por GP/PSD às 15:30 | link do post | comentar

3 comentários:
De Joaquim a 5 de Outubro de 2008 às 16:07
Descreveu a realidade tal como ela é, parabéns!

O problema é que a escola tal como foi criada por este ministério, é popular e garante votos. Desta forma, continuo convencido que venha quem vier as pisadas serão as mesmas para, através do populismo, garantir votos de todos aqueles que, infelizmente, não têm nem terão cultura suficiente para distinguir o ilusionismo e o facilitismo populista da exigência do mundo real...


De Isabel Diogo a 5 de Outubro de 2008 às 17:43
"Estamos a enganar toda uma geração que vai ser ultrapassada e espezinhada por imigrantes oriundos de países onde saber e ser competente ainda são valores fundamentais."

Um dos piores aspectos, sem dúvida. É difícil, muito difícil, ter a consciência tranquila, quando sabemos fazer parte (ainda que oficialmente forçados) desta desconstrução, desta (des)formação (e deformação), deste logro em que se vem tornando a educação. Às vezes soa-me a uma espécie de promoção de formação de seres amorfos, mal-pensantes ... que se mostrarão cada vez mais fáceis de iludir, de enganar e de (des)governar.

É, na minha opinião, urgente que a sociedade e os pais, em particular, tomem consciência, que, na maioria dos casos, "os dezanoves", "os vintes" e "os excelentes" com que os nossos filhos orgulhosamente nos presenteiam não são reais. (o mesmo raciocínio se aplica aos medianos). A maioria, não são e, poucas possibilidades terão de ser, verdadeiros pensadores, de ser críticos e livres opinadores.



De Marta Fonseca a 6 de Outubro de 2008 às 20:01
Sou uma aluna do 12.º ano e, nesta fase final do secundário, tenho um grande peso da disciplina de área de projecto. Dá um contributo enorme para a minha média e preciso que esta seja elevada para poder ingressar na universidade. O meu trabalho é sobre a Educação em Portugal (perspectiva socioeconómica) e, tendo eu ficado com a parte social, agradeceria todo o tipo de ajuda que me podesse dar, visto que li o seu texto e tenho a certeza que me poderia tirar bastantes dúvidas que eu tenho acerca deste tema.

Muito obrigado pela atenção e ficaria ainda mais agredecida se se dispusesse a ajudar-me.


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